Before you break my heart
- Julia Aluar
- 29 de mar.
- 4 min de leitura

I'm your day-one, baby, but you're forgettin' lately
And it's tearin' us apart (oh-oh)
You got a nasty habit, uh, of doin' me damage
When all I wanna do is go back to the start
Essa música tocou a minha alma de formas muito profundas e simplesmente não consigo superar o que a JADE fez. Para quem ainda não escutou, escute. Bom, a cantora britânica, que fazia parte do grupo Little Mix, lançou seu primeiro álbum solo. Ela já tinha acabado comigo quando lançou o primeiro single Angel of my dreams, mas essa é uma música para outro dia. Essa música, “Before You Break My Heart”, que citei no início e que também é o título, norteia as minhas motivações para escrever esse texto, é feita com vocais da própria Jade criança, cantando o refrão de “Stop! In the name of love" do grupo feminino The Supremes, em que uma das integrantes é Diana Ross. Inclusive, a Jade só conseguiu lançar a música porque fez um acordo de não receber nenhum centavo por isso, ela fez pela arte mesmo. A música é como uma conversa do seu eu criança com a pessoa que se tornou agora.
Por que estou explicando tudo isso se poderia começar o texto direto no assunto? Primeiro, porque o processo que envolve essa música já é algo que enche meu coração, segundo, que tem relação com tudo que vou falar agora.
A letra mexeu muito comigo, porque foi como um “balde de água fria”, foi quando percebi estar fazendo absolutamente tudo isso comigo mesma, desistir realmente não é uma opção para mim, quanto mais as pessoas duvidam, mais vou provar que elas estão erradas e por que sou maluca. Porém, percebi que mesmo fazendo tudo o que eu gostava, estava tentando fazer isso para agradar aos outros, no sentido de seguir um caminho que naquele momento não tinha total consciência, mas que na realidade não fazia sentido para mim.
Confesso que, a partir disso, voltei a criar pensando no que eu gostava, por isso falo e escrevo coisas que façam sentido para mim e que, em alguns momentos, eu precisava desse suporte. A música foi um norte para entender que eu estava me deixando de lado, deixando a minha criança interior e estava vivendo do modo automático, sem sentir nada.
Foi muito importante para mim esse momento de reflexão, porque foi nesse momento que consegui me reencontrar e ouvir o que eu estava tentando dizer durante todos esses anos, tive coragem de olhar e perceber que não estava bem.
Por muito tempo, tentei ser o que as pessoas queriam de mim, mas, no final do dia, fiquei extremamente infeliz com isso. Mesmo que ninguém entenda, a arte é parte de mim e não é nada fácil de deixar ir.
Dos 6 para os 26
Queria abrir esse pequeno momento para abrir o meu coração a essa criança que fui.
Sempre fui uma criança, digamos, peculiar, eu era meio do contra, e não que seja algo meio “eu sou diferente das outras garotas” (mas talvez seja um pouco também). Não gostava muito quando as pessoas ficavam me falando como eu deveria ser ou como deveria me comportar, a criança queria ser dona de si e ponto.
A questão é que, como todo mundo, o período que vem depois começa a crescer as cobranças. Você precisa se encaixar no mundo real, precisa ser colocada em uma caixa, se comportar como tal e qualquer coisa que saia disso deve ser reprimida até que não sobre mais nada além de um corpo vazio, vivendo no automático, sem questionar nada. A gente descobre que a vida não é justa e passamos a ver o outro como um inimigo que precisa ser superado a qualquer custo.
Vamos nos perdendo e os nossos sonhos se afogam juntos no meio disso e, mesmo que você vá trabalhar com a profissão dos sonhos, ainda existem expectativas a serem alcançadas. Se você é artista e não chega a alcançar a expectativa do outro, é visto como perda de tempo, por só ser válido quando se é famoso, mas isso é papo para outra hora.
A vida adulta, a forma como a sociedade é organizada, a maneira como as redes sociais são formadas, tudo isso faz a gente perder um pouquinho de nós mesmos, das nossas crianças interiores. A gente não quer mais buscar a nossa própria autenticidade, queremos ser o espelho do outro, queremos ter o que o outro tem, sem nem mesmo pensar se é isso mesmo que você quer. Sinto que, no meio disso tudo, perdi o que tinha de mais valioso, uma criança querendo criar e uma adulta com seus objetivos, duas partes que poderiam andar juntas e encontrar seu próprio caminho.
Can we switch the station to the affirmations? (Ooh, ah)
Will you tell me that I'm worth your love?
Would you put me in the spotlight
On the main stage of your mind, so we can both shine? (Shine, shine)
Wish you could see me as your star
Escrevi esse texto para tentar pelo menos um pouquinho honrar a criança que fui e dizer que não tinha nada de errado na maneira como ela se expressava ou na forma como a arte dominou seu coração. Um pedido de desculpas para todas às vezes que a fiz sentir pequena demais, e que repetia comigo mesma o que outras pessoas fizeram. Relembrar tudo que me trouxe até aqui, principalmente o motivo pelo qual decidi criar livremente, estou fazendo isso por mim, pensando em ser a pessoa que aquela criança teria gostado, esperando que tudo que tenho feito seja algo que agrade à criança que fui.
O texto também é uma comemoração pelos meus 26 anos (aqui é 2026) e hoje entendo que tudo que eu queria ser de alguma forma já existe em mim.

Comentários